sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Les Dames

Duas mulheres beijaram-se, beijaram-se delicadamente, como se tal beijo fosse tudo que importasse, com corações a penderem do seu peito.
Parecia que imperava o cansaço quando o sonho já esgotara-se. Como sempre, ia-se ouvindo uma lengalenga cobarde. Miserere!
Beijou-se uma mulher, o seu bâton saltou e a sua cor entranhou-se na saliva, a pintar dentes e foi (também eu) um pouco de vermelho e de proibído. Cantou-se um beijo naquela noite, um beijo que não foi como os outros porque foi triste. Foi um beijo triste entre duas mulheres presas em amores doentes.


domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Monstro passeia e lembra-se...e conclui.

Paris est une femme mais Londres est un homme indépendant qui fume sa pipe dans un "pub".
(Kerouac, Jack, Le vagabond américain en voie de disparition)


Por isso, decidi violar-te.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O Monstro de Gila diz:
Hoje, inicío uma página em branco, sem doença, sem vício, sem violação.
Hoje, inicío a contestação de palavras preguiçosas que não sabem estar sozinhas e, se eu cuidar delas, nunca mais as largarei.

E Lisboa...

A minha cidade tem estendais e roupas de todas as cores. A minha cidade chia quando o carro roça o passeio e a saia esvoaçante de uma jovem bela que passeia ao sol da tarde. A sombra esconde-se sobre o muro ardente de uma igreja velha e esquecida, com o sino atrasado e melancólico que bate as horas sem som. Esta cidade que não é minha, mas que me está no caminho, é típica, o quanto baste (como numa receita de culinária). Ou a mais! Para aqueles que não sabem quanto é que basta. Ou até quando bastará. Tudo basta porque há rio e depois há o mar que se abre para o horizonte e derrama a sua água pelo infinito. E, antes disso, há carris a fumegar da idade e velhinhas que escondem a cabeça por baixo de um lenço, para que a memória não caia pelas ruas da descrença e ande aos trambolhões pela calçada e pelos pés dos miúdos, como uma nova bola de futebol.
Há arcos e azulejos e terra seca em vasos esquecidos na margem privada de um passeio de todos. Há o espanto abafado pelas cortinas floridas das janelas abertas, à hora do almoço, e a ordem ecoada para fora: para que o menino venha comer. O menino insiste à volta das pedrinhas. Já nem se lembra da fome.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Noctem – Pensamento

Com todos os encantos coabitam todas as desilusões. Pensava ele, no seu bloco mental desorganizado...pensava ele. A noite já ia vivendo as suas largas passadas espontâneas, mas nada lhe dizia entre as horas puxadas pelo esforço do humor. Sentia-se cansado. Sentia-se a suar por todos os poros e que a camisa lhe arrancava pedaços de pele. Quando decidiu que partiria ficou desperto e motivado para o ar gelado que estaria lá fora. O caminho foi curto e o pregador que esperava vir a encontrar ainda não aparecera desta vez. Ele haveria de vir, numa noite inesperada.
Entrou pelo portão das traseiras, cada vez mais encolhido e cada vez menos prático, para ele, que crescia a todo o momento. Hoje sentia-se no seu corpo e o portão não foi suficiente. Com um pouco de pressão, passou e escutou os passos rápidos dos sonhos das pessoas que já dormiam. Talvez, esta noite, o seu sonho fosse ainda mais incrédulo. Acreditava demais. Ficou a pensar numa das perguntas que lhe fizeram, naquela noite. Era demasiado geral, tão infinita como a diversidade nas coisas e nas terras. Exactamente, o que será ser fechado? Como é a massa das pessoas fechadas? Como é que elas se movem? Há quase sempre a possibilidade de uma abertura nos objectos. Uma caixa fecha-se e abre-se ou quebra-se ou estilhaça-se. Se calhar, há pessoas a quem nunca lhes foi dado uma abertura. Há outras, que preferem trincos e haverá ainda outras que não lhes interessa a dualidade de hipóteses. Portanto, ele continuou sem resposta à cidade e sem perceber a urgência.
Pensava ele como era estranho ser ainda um estranho que tinha de dar uma opinião. Não que as não tivesse, mas preferia fechá-las, para mais logo, quando tivesse sítio que lhe pertencesse.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Massas de Bronze

Gostaria que, por vezes, não me despertassem a memória. Em jeito de crónica desajeitada, sem papel que a suporte, os meus mandamentos mundiais ainda proclamam salvação. Hoje foi dia para golfinhos, bem longe do mar onde me banho, mas mesmo assim salvos por pescadores de mangas cortadas e esperançosas. Vi um vídeo que me despertou a memória do enterro, do negro, da escuridão, com oposição vincada à cor da luz dourada em que há esperança e fé. O sol que se reflectia no mar, também salgava a minha fronte e deixou-me as pontas dos dedos mirradas. E os golfinhos, como sempre, são esses animais coroados de nobreza e bondade, salvos pela mão humana de uns homens arriscados a tentar, nos seus simples barcos, com uma ideia nova: guiá-los para o alto mar, onde há todos os mares e céus para quantos golfinhos vierem juntar-se. Mas a memória, de todos, deleita-se com as aventuras promissoras, mas esconde-se para os desastres. Ao menos que ainda haja uma aventura, pousada sobre a minha mesa, ao pequeno-almoço. E que haja uma agenda para encher-me, encher-nos, de programação espiritual.
Do contraste assim nasce a luz, forte e vigorosa, cheia de raízes em mim, para que possa largar os meus frutos maduros, pelas ruas, pelas alamedas e veredas, e pelos canteiros onde ainda possa haver novas árvores ou frutos gigantes. E para que haja outros golfinhos que também possam ser salvos desta terra, num salto, para o mar que lhes pertence: o alto mar, acima de toda a terra, entre os azuis que se fundem ardentemente e se cruzam como pernas de amantes.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A Serra

Na juventude, aconteceram-me coisas incríveis! Trazíamos a natureza na palma das mãos e lobos maus como palavras que iam devorando as ingenuidades. Invadíamos propriedades privadas porque também queríamos um miradouro só para nós. Desejávamos o esplendor. Desejávamos arrebatamento e descobrir novas falas das árvores e das aves pousadas sobre o nevoeiro sombrio e escorregadio. Felizmente, sonhei muito. Sonhei no sítio certo e sonharam para mim. Na realidade, havia sonho no manto verde, disforme e húmido daquela natureza. Ali, só era preciso ter vocação para viver. Ali, o destino não existia. Ali, não havia fatalidades para o futuro. Ali, havia imaginação para possíveis ninfas e monges e dragões. Ali, havia espaço para a juventude transbordante. Ali, havia uma solução para a nossa selvajaria e para o nosso absurdo.

Lancei o oitavo suspiro porque encontrei o silêncio, no mesmo sítio onde temia a solidão. Havia um horizonte, para o qual debruçava-me na esperança de ouvir os murmúrios da paisagem. O silêncio era mesmo real porque tudo estava longe dali. Excepto os corações que batiam ao meu lado.