quarta-feira, 25 de março de 2009

À espera

Passei o dia à espera. Com paciência quase catártica. Esperei que o piano do vizinho explodisse em penas brancas e negras para invadir a rua morta de silêncio, esperei que a garganta da senhora se calasse ou que perdesse os pés à entrada da casa, esperei que alguma taça se partisse para acordar os pássaros fartos de bagas, esperei que alguém procurasse o corrimão das minhas escadas, esperei que o vento se levantasse em tempestade, esperei pelo lanche com a resignação de uma criança que tem medo de facas, esperei por adormecer como passatempo porque nada chegava, esperei pelo passeio ao longo do rio, esperei pela afirmação da minha razão mas ninguém quis falar.

sábado, 21 de março de 2009

Mais, não digo! Só acrescento que, a partir de agora, não consigo viver sem ele!


segunda-feira, 16 de março de 2009

A Nous Paris, distribué dans le metro

Esta semana, o editorial remata assim: Barbie, c’ est toi ma star. O City Magazine Paris dá capa à Barbie que festeja o seu 50º aniversário, no dia 9 de Março. A celebração merece uma atenção particular do semanário, que a coroa na secção Phénomène (Barbie, blonde depuis cinquante ans). A boneca mais famosa do mundo, que exerceu 108 profissões desde enfermeira a Presidente dos Estados Unidos, é teorizada como uma “caricature de la consommation ostentatoire”, no artigo da revista. A Barbie ultrapassa o universo de brinquedo para integrar certos valores sociais e feministas. Independente e sensual, a Barbie comanda a sua própria vida, nunca abandonando as novas tendências. Assim, Paris acolherá Barbie numa exposição com 250 bonecas de colecções privadas.

A Nous Paris é uma revista grátis, com distribuição à 2ª feira, nos metros de Paris. Não concebo outro local mais acessível. Leio outras revistas (mais pretensiosas), largadas em tais sítios pretensiosos ou em voga, que não me captam tanto. Este magazine sabe acolher o leitor, sabe partilhar a informação e passá-la de forma franca. Impressa em papel de jornal, num formato A3, o design é um pormenor para emoldurar toda a agenda cultural semanal de Paris. Está dividida em quatro grandes secções, preenchendo cerca de cinquenta páginas: “Dans l’Air”, “Affaires Culturelles”, “Style de Ville” e “Connexions”. Esta última secção é referente às ofertas de emprego e aos diversos classificados. As outras secções comprometem-se a divulgar todos os acontecimentos (e suas partes envolventes) que desenvolverão algum tipo de actividade em Paris. É uma agenda completa!

Acima de tudo, é uma revista com charme e carisma e que é para nós. Nós sabemos.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Leitaria A Camponeza


Todos os dias, o arrumador dita-me um bom dia, desdentado e alcoólico. Mas, sem medo desse sorriso débil, ele dita-me um bom dia. Eu tento fazer como lhe agradeci. Na rua, escurecida pela estreiteza e pelo mistério, os dias vivem-se num centro de cidade longe dessa cidade em combate para o rio. Para além das fachadas, há a cidade contada e pingada sobre o balcão, no olhar saudoso e inegável de outros tempos. A velhice coxeia sobre uma perna manca de recordações e repousa o seu silêncio, debruçado sobre a mesa a pedido de mais um bagaço. E, desse bagaço, já começam a nascer uns murmúrios que me contam como foi. Há sempre algo de triste que fica, quando as histórias se despedem, talvez para voltarem no dia seguinte. Mas, se assim não acontece, há outro que descobre como começar a sua história. Ou há outro que volta para afinal esquecer-se da sua história desenhada num bloco, deixado ao lado dos trocos do café.

Mas a Camponeza tem saudades de Lisboa. Já poucos lhe vêm contar histórias, ao sussurro contra os azulejos. Ou aqueles que rasgam tantos guardanapos quanto a batida do seu coração, à procura da resposta escrita do sucedido. E há quem pergunte, às paredes, o que traz a bilha da Camponeza, com medo de abrir a própria mala, para não chorar o pecado. E há quem não apareça porque falar do bem traz-lhes dores de cabeça e não lhes assenta bem na frustração pendurada nos ombros como casaco desgastado.
Mas a Camponeza continua com saudades de Lisboa. Um século já passou-lhe, à espera que venha um próximo que poderá chegar, quando ela menos esperar.

Só suposição...

Lembra-se vagamente de tê-lo ouvido falar de perfeição. No entanto, nunca saberá se ele se referia ao destino ou a certezas. Naquele momento, só a matéria dava-lhe algumas certezas e, talvez, também ele desaparecesse ou quisesse fugir. Tudo o resto, estava incerto como o plano dos chãos e dos passeios. Se pensava em perfeição, sentia eternidade no vazio, um vácuo crescente. Possivelmente, o tal alemão fingido de indiano falhara nas suas suposições ou, então, ele terá falhado nas suas escolhas. No final de contas, foi apenas um estranho que lhe pegara na mão e falara-lhe de uma infância que não foi a sua. Ou terá sido?
Talvez tivesse acontecido em sonho. Talvez tivesse sido ele no monólogo do seu sono, a encontrar as palavras que desejava ouvir. Mas o toque desaparecera. E as linhas das mãos continuavam indefinidas, como sempre haviam sido. Ouvia a voz do indiano contar-lhe todas as histórias e ele sentia-se cada vez mais longe, no outro lado oposto do mundo. Agarrava-se ao corrimão para sentir as escadas que não queriam acabar e que o elevavam a uma subida em descida. Sentia-se inexplicável e só apetecia-lhe gemer, encostado ao cão para que também pudesse transformar-se em cão e, quando ganisse, algum estranho lhe fizesse uma festa.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O meu Real Jardim

Quando dormia na casa da minha avó, decorei os sons dessas noites. Dormia no sofá da sala, retalhado por uma manta de lã colorida. Por cima do sofá, estava um espelho enorme pendurado imponentemente, onde me cabia o corpo inteiro. Quando muitos anos passaram, os membros já não cabiam inteiros. Ao adormecer, magicava que seria engolida pelo espelho e nunca mais ninguém me descobriria. Concluía com a agonia que sentiria se fosse qualquer imagem reflectida. Por isso, um dia, decidi parti-lo com um vaso de flores que estava em cima da mesa, à frente do sofá. Havia também um leque que acalmava quando a corrente de ar não era suficientemente forte para matar o calor misturado com o ar espesso poluído da cidade. Mas era calmo e havia uma grande palmeira nas traseiras da casa. O papagaio contava-lhe histórias durante a tarde e eu, escondia-me atrás da porta, para também escutar o que ele dizia.
Sei os sons de cor e nunca os hei-de ouvir outra vez. A minha avó mudou de casa e eu também mudei. Agora, tenho uma cama grande e a respiração de um homem que me regula o sono.
Mas a árvore cansada continua lá, a murmurar a sua preguiça, o seu cansaço e a sua velhice para aqueles que se sentam sob a sua sombra e se refugiam nas varandas solarengas de fim de tarde ou para as crianças distraídas do mundo e das crises. É um jardim com patrão, com chefia de árvore secular. E, nessas noites, conseguia escutar o arfar bruto do sono de uma árvore que aloja vidas, pombos, arames, migalhas, desabafos, histórias que morreram ali.

Para mim, o jardim mais belo em todo o mundo.




domingo, 1 de março de 2009

Fim de Cerimónia

O que ocorre lá são emergências! Alavanca vermelha: ainda que vissem o rio, o mar, árvores, ainda que vissem possíveis formas de qualquer coisa. Tantas vezes partiram-se azulejos e barreiras, outras tantas esbarrou-se em muros e caiu-se de galhos e algo a menos afundou-se em novas poças vermelhas. Um dia, afoguei todos os canhões nas ruas onde vivi um tempo de mim mesma. Estava a armar-me contra o quê e o porquê porque sabia que me iam fazer muitas perguntas. Pois bem, resolvi fazer as tréguas com aquele lugar e devolver-me a ele, encontrar algo em mim na sua decadência, no seu esplendor efémero e tranquilo de fim de tarde. Mas quando a noite estava nublada, aquele lugar cerrava-se nele mesmo e aí eu angustiava-me porque não via para além. Ah como precisava de olhar. Via apenas as luzes tímidas dos passeios e as altitudes dos prédios a esmorecerem entre o nevoeiro. Ficava desencantado, pois assisitia ao retorno de uma antiga antipatia. Acho que tive muita paciência com aquele sítio. Não me vêem a chorar mais por outro cão abandonado. Irei, irei, irei-me dali. Tantos suspiros e o vento levou-os a todos. Bem podeis soprar-me para longe...