segunda-feira, 27 de abril de 2009

Liberdade

Dou esta flor porque é a única coisa possível de dar nesta praça quadrada de pedra, prédios e mesas de mármore velho. Dou esta flor, agarrada ao meu corpo de pétalas em Primavera. Dou esta flor em extensão à minha cabeça latejante de ternura. Dou esta flor para matar essa arma, para entupi-la de pólen alérgico. Não dou mais nada porque não consigo suportar a ironia da minha dádiva. Queima-me as roupas de angústia pesada e penso que talvez pudéssemos ter sido iguais: se tivéssemos sido irmãos, vizinhos ou vivido a mesma infância a brincar com as mesmas pedras da rua onde cairíamos em paixões e seriamos os melhores amigos. Mas estás-me a apontar uma arma.
Tens o poder de matar-me e eu tenho o poder de amar-te.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Exit


Há um mundo cruzado nas paredes da cidade. Nem o ataque do sol apaga o cimento teimoso, nem muita chuva lava as lágrimas escritas a letras grossas de tinta roubada ao coração, nem a neve esconde as lâmpadas de inspiração nocturna. Os animais reinam o mundo à paragem da esquina e os gatos miam sobre os telhados uma linguagem de tijolos. O poste dobra-se a escutar a nova história, largada em folhas na mala preta, assinada pelas mãos enraizadas nas frestas de musgo. Alguém rega as flores para que todos os dias elas floresçam, na parede de entrada amarela, onde cabeças animalescas espreitam dos seus prados desaparecidos na cidade.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Escuro

Sobre este sofá aveludado repousa o vestígio dorido dos ossos desencaixados do corpo volátil e disforme de mim. Resta-me a luz pequena, já longe das minhas mãos que se aconchegam contra uma parede suada de palpitações quebradas e descontínuas de murmúrios cínicos, vingados na repetição desinteressada. A parede de madeira, a lembrar um salão de outrora ou de hoje, conforme o desejo de antiguidade e de memória doce escoante nas esquinas lavradas a água suja de lixívia e restos de humanidade, finca-se tremente sobre o chão indeciso dos passos em volta, à procura do fim do labirinto. No vidro da parede cenário, eu preferia estilhaçar o meu braço contra o vidro opaco de linhas curvas para sentir como é a liberdade da abertura forçada. O veludo vermelho escuro do sofá confunde os borbotos da pele com os da roupa escolhida da Primavera ainda velha. Ainda bem que aqui não anda ninguém, não há aqui ninguém que tropece na sua própria distracção para cair nos meus braços cansados de peso, nem mesmo a sombra de mim (onde a deixei: agachada sobre o ladrilho do passeio à procura de uma semente à beira da rua molhada e suja).
Contra o clarão reflectido, o anonimato ofuscante mata germes de vaidade. Eu fico à espera de um jazz e de uma voz a ressoar pelos copos vazios que me encha os olhos de tempo de verão, quando a vida parece mais fácil. E, assim, a fotografia descobre-se sem marca de pessoa, sem marca de mim, lá, a contar os minutos do flash.

domingo, 12 de abril de 2009

Hoje é sábado de manhã e o sol irrompe pelos telhados, rasgando a placa de gelo dos corpos arrefecidos sobre a cama. Sinto-me intrusa neste sábado de manhã, no passeio premeditado à pressão de um minuto. Sinto-me intrusa nestas famílias que me acolhem entre os bancos do metro e com gestos energéticos de um pequeno-almoço reforçado e tranquilo. Sinto-me preguiçosa ao passar em passo lento por aqueles que correm para cortar a meta invisível da sua vida, num sábado sem ambição. Os carros deslizam num silêncio obrigatório de cidade ingénua ao despertar de uma memória nocturna.
A Torre Eiffel parece menor porque a cidade cresceu nesta manhã de vitaminas luminosas e de risos frescos e sonhadores. Há um repouso de balada de piano e há quem pare sem razão no meio do passeio, só para parar, só para sentir que tem tempo para parar sobre as árvores enormes de braços enrugados que nos embalam como bebés. As estátuas descerram os seus membros de pedra e caminham em sussurro à procura da sua vida de outrora.
Como numa fotografia a preto e branco com o sol a impor-se na cor dos beijos, provavelmente num sábado, num eterno sábado de manhã quando o metal se funde em carícias quentes de rendas nos abraços dos amantes afagados pelo calor da manhã.

E o Vencedor...

...para a categoria de ONE MAN SHOW, em Paris, é: MOLOW!


http://www.myspace.com/vazymolow

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O quê Pulquéria?

in PÚBLICO, 10.04.2009

Instruções dada em acção de formação antes da abertura da loja
Funcionárias da Loja do Cidadão de Faro proibidas de usar saias curtas e decotes

As funcionárias da Loja do Cidadão de Faro, inaugurada a 3 de Abril, foram proibidas de usar saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos. As instruções foram dadas numa acção de formação antes da abertura da loja, denunciou uma funcionária.Segundo conta hoje o “Correio da Manhã”, as instruções foram apresentadas durante uma acção de formação promovida pela Agência de Modernização Administrativa.“Esta acção incide sobre várias matérias e, em particular, sobre o que deve constituir um atendimento de qualidade, que ajuda ou prejudica o relacionamento com os cidadãos”, justificou Maria Pulquéria Lúcio, vogal do Conselho Directivo da agência, ao jornal.Os “aspectos de postura pessoal foram abordados como importantes para uma imagem cuidada” das funcionárias, acrescentou.Pulquéria Lúcio confirmou a proibição do uso de decotes exagerados, perfumes agressivos e gangas, mas negou a referência a saltos altos e a roupa interior escura.

sábado, 4 de abril de 2009

Como esses.

Devia-se poder fuzilar os fantasmas. Como aqueles que se lamentam aos ouvidos enquanto se dorme. Como aqueles que respiram alto no negro da noite e talham o movimento de medos e calafrios húmidos. Como aqueles que nos ditam, no meio das gentes, as ondas dos versos e das palavras defensivas. Como aqueles que vêm presos às lágrimas e nos ocultam a luz clara do dia luminoso. Como aqueles que escondem as ratoeiras, guardadas nos cantos frios da solidão. Como aqueles que roubam brinquedos preferidos, abandonados pela infância comovedora dos cheiros e dos afectos. Como aqueles que ainda gritam para dentro do eco em nós, alimentando a insegurança de doença.

Como esses que pisam as pedras brancas da entrada da minha casa, a ameaçar arrombar a privacidade plantada à beira da janela. Como esses que escuto a rirem no meio da praça deserta, aflitos de existência à beira da fonte seca. Como esses que massacram a moral para que eu viva numa condenação permanente de impotência. Como esses que não sabem falar, mas só lançar grunhidos agudos de palavras violentadas. Como esses fantasmas futuros vestidos de incógnitas e de batas brancas de psiquiatra que não compreende a loucura de si mesmo. Como esses fantasmas que não conheço, mas que estão sempre presentes a marcar caminho, rumo ao meu.

Ainda a crise...a contar desde sempre? (vale a pena ouvir...)

YouTube - les civils, la crise

Je vais sortir ce soir, ce soir
Jusqu'au petit matin, matin
Pas de boulot pour moi, pour moi
Je dormirai demain, demain matin
Je sirote un cocktail, un cocktail
En écoutant du rock, rock rock
Je parle a une fille, belle fille
Mais j'ai l'estomac vide, oui tellement vide

La crise économique : c'est fantastique,
La décadence : c'est la bonne ambiance

Je vais sortir ce soir, ce soir
En écoutant du rock, be bop a lula
Pas de boulot pour moi, pour moi
Je sirote un cocktail
Je parle à une fille, une fille
Jusqu'au petit matin, petit matin
Je dormirai demain, demain
Mais j'ai l'estomac vide oui tellement vide
Regarde un peu ce look,
Ecoute un peu ce son,

Ce soir au Tchad, on crève
Mais je m'achète le walkman de mes rêves

Haha haha haha
Ce soir au Tchad, on crève
Mais je m'achète le walkman de mes rêves

La crise économique : c'est fantastique,
La décadence : c'est la bonne ambiance…

La crise économique : c'est fantastique,
La décadence : c'est la bonne ambiance...

(Les Civils, "La Crise, 1981)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Monte Saint Michel


Não é como o rio que deita-se aos pés da cidade, em jeito de mulher, com as curvas sensuais de outras conquistas e de novas esperanças. Também há névoa que dissipa o olhar e faz-nos ser como criança gulosa que não cessa de procurar o doce escondido no armário alto a que não se chega. Mas o sol rasgará o véu de mistério opaco e desvendará outra forma de ser e de estar, inclinado sobre o monte, a apontar o céu com a ponta de um anjo dourado. A névoa afastar-se-á, como agente culpado, e o monte será ainda mais belo.

No cume da pequena caminhada, resguardada pela sombra dos prédios baixos, o mosteiro pinta-se de luz dourada, curiosa salvadora entre as frestas de vitrais. O claustro centraliza a harmonia da abertura, com seus arabescos discretos de misterioso jardim.
Há uma sensação de reencontro entre forças que não se conhecem, mas que não se combatem…entre corpo e alma que se comunicam…