terça-feira, 26 de maio de 2009

A Casa


Não era a casa dos seus sonhos, mas deixou-lhe um sonho a germinar nas paredes em elipses laranjas, como laranjeiras num jardim oculto. Agora, pensava nas outras possibilidades do futuro múltiplo, revivido em ânsias de pensamento. Desnudava a casa e pousava os poucos objectos com uma delicadeza de despedida e uma solenidade respeitosa às memórias de cada um desses objectos. Chovia e os barulhos dos carros eram amortecidos pelas gotas violentas de uma primavera em vingança. Chovia e alguém mudava-se numa pressa embaraçada. Chovia e continuava a ouvir o piano do vizinho, em constante erro, num prazer desligado do mundo e da tempestade que batia à janela. Chovia e ela esperava um intervalo, para fugir para fora de casa, enquanto a cidade ainda vivia as palpitações terrestres dos passos da gente. Era uma pequena casa, como um barco em flutuação num rio sereno, onde ligeiras vagas trespassavam as horas de desastres menores ou de alegrias, a tremeluzir nos poros sensíveis. As heras abrigavam as escadas da entrada, num artifício de abrigo florestal. As grandes árvores deixavam cair a sua melancolia sobre o terraço, com quedas lentas de flores cansadas. Ela recolhia esses abandonos e olhava o vigor da árvore, em força constante para criar novas vidas.
As horas passaram numa cerimoniosa lentidão, como um comboio sem passageiros que atravessa lentamente um apeadeiro, pesado e curvo sobre as rodas que desfilam em cima do metal quente de uma tarde de calor. As horas pousaram à entrada da casa, sobre a ombreira frágil de madeira branca. Esta não seria jamais a casa dos seus sonhos e as malas já estavam empilhadas por tamanho. O carro pararia às vinte horas, à frente do portão secundário. E às vinte horas ela não ousaria chorar a repetida despedida. Enquanto a casa esvaziava-se de todas as emoções inocentes que ela lhe julgara pertencer, desviou a garrafa de uísque e pousou a cabeça debaixo do foco do candeeiro na tentativa de apagar o negro. Assim, esperou…até que a lâmpada fundisse e pudesse finalmente fechar os olhos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Linha 9


Bonne Nouvelle, Marcelo Mastroianni.
Grands Boulevards, um sem-abrigo com laranjas em sacos cheios.
Richelieu Drouot, Hepatite B ou gelado para beber?
Rolling Stones no túnel.
Chaussée d’Antin La Fayette, Internet a 19,90euros o mês.
Azulejo laranja, Havre-Caumartin, art rock 2009.
“Nous aimons, nous participons”.
St. Augustin, todos os dias os ratos vêm comer à mão do velho de chapéu ou 1664.
Miromesnil, despida, Anges et Démons ou ainda divas italianas, a preto e branco.
Planos, planos.
Saint Philippe du Roule, mocho gigante sentado nos bancos laranjas, na noite que anuncía museus.
Franklin D. Roosevelt, sem busto ou estátua, metal cinzento no amarelo.
Alma-Marceau e Iéna, tranquilas, como sempre.
Trocadéro.
Rue de la Pompe...tente-se com pompa, mas sem a circunstância.

sábado, 9 de maio de 2009


Já não há medo. Já não há deserto, plantado sobre as casas e sobre as avenidas. Já não há sono que te controle o batimento lento do olhar. Já não há hora que te engasgue o destino. Já não há a fome que te encrave a passagem. Já não há assassinos de palavras. Só o pulsar da minha mão fria em detalhe contra o casaco que voa sobre os teus passos largos. Corre antes que a meta se desfaça em fragmentos de fotografia rasgada. Corre antes que o candeeiro se apague nos teus sonhos suados.

segunda-feira, 4 de maio de 2009


Oh Clémence, que espíritos vagueiam entre as flores que adormeceste? Que história de criança inventaste para que a boneca não fosse a correr no entusiasmo de domingo, perdida entre as mesas altas, folhadas de bolos e cores de gelatinas?
Oh Clémence, posso largar a vida de adulto e abandonar-me ao pé de ti e, tal como tu, despentear-me no oásis de almofadas quentes? O sol escondeu as sombras da insónia e os fantasmas aconchegam-te as mantas desarticuladas dos teus braços enquanto sonhas alto, bem alto de todos nós. Quero também sonhar agora, prender-me aos cobertores e fechar os olhos para acompanhar-te nesta tarde de embalo e piquenique entre pomares celestes e fontes reais.