segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Viagem nas tuas viagens. I.

Vigio a minha própria segurança, enquanto peça cuspida do preto das curvas. Sinto-me à beira da noite, quando estico as pernas e, pela perspectiva da ponta dos meus pés aborrecidos, a outra parede está em continuação às curvas dos meus tornozelos. Que acontecerá a todo este espaço no silêncio da madrugada? Sei de cor que não existem arestas, para onde fixo os meus cabelos encaracolados, sei de cor o toque da pele desta cobra gigante, sei de cor o som dos passos à minha frente, sei de cor o abraço destes braços que abraçam o meu silêncio. Já conheço todas as sombras, menos a minha sepultada na parede branca manchada pelas gotas do meu pensamento.

Vigio o espaço do chão ao tecto que às vezes confundo no céu, quando saio daqui e o sol é tão forte que encandeia todos os sentidos. Saio vestida noutras cores para apagar o preto e o branco que vingam a modernidade de um novo cinema ao vivo, onde sou a projeccionista.

domingo, 16 de agosto de 2009


Domingo era dia de todas as Marilou’s encherem-lhe a cara de frescos de lábios marotos e bondosos. Domingo era dia de uma bela vida em Belleville, enquanto passeavam-se em ziguezagues de passos abafados na pressa das bicicletas dos chineses. Domingo era dia de Baroc, em indirecto ou em directo, suspenso na surpresa talvez esperada, mas na expectativa de ouvir outro saxofone explosivo (e a pólvora seca nos seus pés). O Domingo continua a ser...a soar mais a dimanche do que a domingo. Talvez porque haja certas cidades que dão-nos domingos, entre pontes e escadas com gente esquecida da vida e estupefacta pela milésima vez, entre músicas e ainda o frenesim do compasso citadino, entre romantismos e maravilhas cinematográficas que, afinal, existem mesmo.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

São 20h32 e faz quatro minutos que abandonei o velho estendido no chão…quem sabe para a solidão mais profunda da noite, quem sabe para a perdição sem encontro (do velho provinciano e de boca seca). Disfarcei-me da minha humanidade tímida, quinze metros à frente, à espera de outra humanidade ousada.

Esta cidade, nesta praça principal, pegajosa e abafada no quadrado de prédios vazios, escoa os marinheiros defuntos para o rio escondido entre duas margens eufóricos pela soberania descontrolada e desorganizada. São 20h34 e sento-me num banco novo do comboio, na carruagem que teve direito a prémio, enquanto as outras ainda vingam pela operação plástica. A imagem do velho já está longe, depois de passado o túnel. Ao ver-se a luz no final do túnel, há sempre o sonho de ser outro o destino, de serem outras as paragens e de serem outras as pessoas tristes.