terça-feira, 20 de outubro de 2009

Viagem nas tuas viagens. IV.

Já não há pombos a quem dar de comer. Já não há quem me solidifique na solidão espectral dos dias vazios. Sem pombos e sem pessoas. Bem me posso torcer neste corpo de massa para aconchegar os casacos no corpo magro, mas o frio agoniza a minha expressão e as minhas mãos vividas, apertadas numa contra a outra para não deixar escapar o reservatório das lembranças. Não sei se diga adeus ou deseje um bom dia, na frescura tardia das horas. Não sei se o dia de ontem pode-se repetir na recordação dos dias passados, mas não alcanço memória dos anos passados, na companhia de uma família, agora crescida e posta em retrato. Assim, guardo as lembranças porque as lembranças são sentimentos doces que o prazer deixou-me gravadas. Mas a memória?! Fui destruindo-a porque foi-me imposta pelas escolhas que eram únicas opções, naqueles tempos em que o coração mentia-me descaradamente.
Agora, já nem aos pombos posso dar de comer. Pode ser que eles voltem amanhã, para variar.

domingo, 11 de outubro de 2009

Hoje o monstro permite-se, com muita razão, a abanar a sua cauda.

domingo, 4 de outubro de 2009


O monstro anda nuns modos mais pensativos, mais pasmados perante o que se ouve e o que se discute sem conteúdo. O monstro tem andado sem ter que dizer, mas muito para remoer sobre as horas que passam e puxam o lustro à sua raiva. E tem tentado pular a cerca, atrás de qualquer coisa ou de uma resposta clara e directa, por trás deste dourado que vai deixar-lhe saudade. Mas aquelas traseiras de pomar são tão lindas e os vizinhos têm pés de domingo madrugador, que ele acaba por não importar-se da preguiça que parece não querer acabar. Se calhar, acaba por desleixar-se com a importância dos assuntos, mas só apetece-lhe enfiar a cabeça viscosa na terra e respirar o ar molhado da terra e cantar os hits da sua história neste mundo.

"Au revoir! …aqui está escuro, mas ouço as músicas e os meus pianos desdentados, e vejo as teclas caídas da concertina e as cordas embrulhadas na caixa de violino. É demasiado pequeno para a bateria, mas posso marcar o ritmo."

E o monstro demorou muito tempo, de cauda no ar e cabeça debaixo de terra, escondido do azar e abençoado com a escuridão da terra, cheia de relâmpagos de magias subterrâneas.