terça-feira, 27 de julho de 2010

Que imagem trago eu de mim? E que imagem trazes tu reflectida de mim? Como deverás tu ler-me na ignorância que tenho de mim? Saberás coisas de mim que desconheço. Talvez que pintasses um quadro com as cores que dizes que eu tenho e eu finalmente acreditasse que as tuas palavras são reais, como algo que eu pudesse pegar e somar o peso. Saberás os meus defeitos com mais pormenor, mas aí eu desmentirei para manter a cortesia da batalha de caracteres. E mesmo assim te apercebas que minto. Ou espero que saibas que quando te minto é porque mantenho a cortesia que sugere a distância e que, no fundo, o que me apetecia era rasgar em beijos contigo e pensar que o meu amor poderia voltar.

Que sensação agonizante me dá o silêncio, o silêncio desta escrita sem leitor, o silêncio do meu grito no escuro, o silêncio do bater do meu coração junto à minha boca ou o silêncio da música que repete tantas vezes que já não sinto-a na camada de som real.

Não quero este silêncio. E, mesmo que o meu amor não volte para mim, eu posso continuar a pensar que sim. Para que, ao menos, não haja silêncio.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Quem me dera ser um homem. Quem me dera ser o homem estendido ao sol, desprovido de nervos, com o peito inchado de sonolências. Quem me dera ser o homem deitado sobre uma manta branca, isolado na sua ilha de complacência. Quem me dera ser o homem desprotegido de ficções alheias, para encabeçar o imaginário de alguém. Quem me dera descobrir o tamanho das pernas alongadas no campo, para que elas ganhassem forma de natureza sobre o horizonte, entre pequenos malmequeres a espreitar à luz. Ou ganhar a amplitude do silêncio sobre o homem, que o abraça com uma tranquilidade amortizante.


domingo, 11 de julho de 2010

O monstro canta, tal como se cantava sobre uma tal Mary Jane, na sua adolescência entre ciprestes e pomares invioláveis em pecado. E, sem perceber porquê, a música vinha-lhe à memória, como uma doce jorrada revigorante de pertença. Apesar disso, foi um bolero a animar-lhe o espírito, quando compreendeu que o solo terminaria em uníssono e muito mais viriam dar-lhe o acorde para afinar aquela trapalhada toda. Assim, o monstro, que já há muito espreitava o que se passava lá por baixo, sentiu-se com coragem para dar uns passos de dança, mesmo que os outros não se apercebessem. E sem que ele mesmo se apercebesse que se deixava embalar entre os abraços dos outros seres, escondidos como os répteis sabem ficar, e deixava-se escorregar no meio do incógnito e do desconhecido, com a maior das ligeirezas que reflectiam o seu alívio. Pode-se dizer que o monstro parecia feliz, com essa bonita melancolia musical, a dar-lhe um recorte de frescura entre aqueles imundos supostos amigos. Porque apesar do que ele pensasse sobre os outros, ele de facto não compreendia aquela linguagem de códigos de animais armados em gente de duas patas. Por isso, optou por mostrar o seu lado mais animal e mais descarado.

Mas havia outra música da qual lembrava-se. E cantava-se que a senhora tinha de “mauvaises nouvelles” e que não encontrava palavras para contar-lhe, tal como o monstro não tinha números para acrescentar à sua contagem de estrelas naquela noite esplêndida. Mas para a senhora da música acaba tudo por ser triste, cantado na voz redimida da confissão. Mas o monstro não apetecia confessar-se, a ninguém, talvez com excepção do silêncio do céu.