sexta-feira, 17 de abril de 2009

Escuro

Sobre este sofá aveludado repousa o vestígio dorido dos ossos desencaixados do corpo volátil e disforme de mim. Resta-me a luz pequena, já longe das minhas mãos que se aconchegam contra uma parede suada de palpitações quebradas e descontínuas de murmúrios cínicos, vingados na repetição desinteressada. A parede de madeira, a lembrar um salão de outrora ou de hoje, conforme o desejo de antiguidade e de memória doce escoante nas esquinas lavradas a água suja de lixívia e restos de humanidade, finca-se tremente sobre o chão indeciso dos passos em volta, à procura do fim do labirinto. No vidro da parede cenário, eu preferia estilhaçar o meu braço contra o vidro opaco de linhas curvas para sentir como é a liberdade da abertura forçada. O veludo vermelho escuro do sofá confunde os borbotos da pele com os da roupa escolhida da Primavera ainda velha. Ainda bem que aqui não anda ninguém, não há aqui ninguém que tropece na sua própria distracção para cair nos meus braços cansados de peso, nem mesmo a sombra de mim (onde a deixei: agachada sobre o ladrilho do passeio à procura de uma semente à beira da rua molhada e suja).
Contra o clarão reflectido, o anonimato ofuscante mata germes de vaidade. Eu fico à espera de um jazz e de uma voz a ressoar pelos copos vazios que me encha os olhos de tempo de verão, quando a vida parece mais fácil. E, assim, a fotografia descobre-se sem marca de pessoa, sem marca de mim, lá, a contar os minutos do flash.

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