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sábado, 14 de novembro de 2009

Viagem nas tuas viagens. V. (Afinal o sonho já existe)

Tenho receio de estar tão perto de ti porque receio o quão longe poderei estar. E poderá passar muito tempo, tanto tempo como o da mudança das cores destas árvores, até o vento despi-las de folhas e elas mostrarem-se no seu esqueleto escultural. Tal como eu, ficarão nuas. Já estou nu, mas o meu sonho por ti cobre-me o corpo de partículas que não conheço o nome.
Eu estudo ciência, mas não posso meter-te num frasco, como a tal lágrima, para examinar-te e saber como fazes reacção. Quero a tua reacção dentro de mim para que possa navegar até ao fim do mar e descobrir onde pára o mundo, em mim, em ti, em nós.
Também viajaste comigo, uma vez, e nas minhas fotografias beijo-te a face, atrás do olho que ama-te. Mas o teu amor já é dado e eu não terei uma hipótese para além desta fotografia, onde resplandeces como uma centelha? Poderá ele escrever-te assim, descrever-te como um coro angelical que canta dentro de mim? Poderá ele ser eu, por um dia, para que possa dizer-te que amo-te, as vezes que quiser sem medo de ferir-te a razão?
Não sei como continuar…assim. Sem nada que te dê, a não ser a minha bondade e o meu amor guardado dentro da minha boca, para que não te destrua com a nossa hipótese. Se assim quiseres...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Viagem nas tuas viagens. III.

És o menino que cresceu. E eu já não sou criança agarrada ao amor que não soubeste usar. Espreitava-te, sozinha no banco corrido enquanto rias com todos e eu deslumbrava-me em ti. És o menino que cresceu e quando chegaste a grande, eu comecei a odiar-te porque não soubeste espreitar comigo o mundo. Comecei a odiar-te porque soubeste destruir o encanto do primeiro amor. E fiquei a achar que amar é muito difícil, mais difícil que escalar muito alto a montanha mais acidentada. Mas, nem por isso, cortaste-me as asas, talvez porque nunca as soubeste abrir para sentir o seu toque de pluma e o seu cheiro a flores silvestres. Posso espreitar-te quando quiser, mas tenho a sombra dos pássaros que sempre estiveram comigo e que, quando eu caí da infância para a vida adulta, apararam-me a queda com novelos de penas. Por isso, continuo a odiar-te porque uma ave ensinou-me a voar com ela.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Viagem nas tuas viagens. II.

Estou cansada deste calor, de sentir este abrasador colado ao meu corpo sobre esta ombreira desprotegida na rua de calçada velha, roendo as angústias em sonhos tristes. Se fosse como a pessoa que não existe na cadeira, poderia baloiçar as costas num vagar arrepiado e sentir os músculos tensos, aconchegados nas mangas compridas de lã e pensar imaculadamente como o redor silencioso. O manto de neve estala-se como pedaços de cerâmica sobre os meus passos incalculáveis e eu continuo sentada sobre a ombreira, em viagem pela tua paisagem, sedenta de gelo e do alpendre onde escondo o meu descanso.