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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Não me avisaste que ia sentir-me assim, em espalho como esta água está no mundo. Ninguém calou o meu impulso carnívoro e eu soltei jorros com a ansiedade de virgens que saltam para a cama do estranho que prometera-lhes eterno amor. Tiraste-me desta fotografia, em plena explosão de força e não soubeste trancar-me a torneira dentro do peito descosido. E agora? Vou ficar para sempre a pingar? Vou alagar cada casa onde me assento? Vou molhar as toalhas onde como as refeições que o meu corpo aceitar?

Um dia, vens coser-me o peito? Trazes a linha que está na caixa de madeira velha a ranger sobre a mesa-de-cabeceira, ao lado dos pares de dançarinos por cima do gira discos. E se te lembrares, na altura, volta-me a pintar uns lábios e umas sobrancelhas para parecer mais igual às gentes. Depois, estica-me ao sol. Que bem que vai saber! Estica-me ao sol para voltar a prender os meus cavalos dentro de mim e sossegar o meu coração de corda.

Um dia, vens?


quarta-feira, 17 de março de 2010

Nós que não somos um dueto

Que sabes tu dos copos que ontem sorvemos, das conversas interrompidas ou por quem nos apaixonámos…que sabes tu das dores que trago no corpo, dos números que marco para falar ou os livros que folheio em busca da resposta no meio de outras respostas…que sabes tu de minhas horas ou dos meus ensaios de tubo erguido ao céu e das poesias em que me perco e cada vez mais de ti…que sabes tu de nós…nós que continuamos de mãos dadas, mesmo aos arranhões, no meio de história lenta…mas como não nos procuramos em heróis, despejamo-nos em amores desiludidos…já não questiono as distâncias das minhas perguntas até aos teus livros rascunhados de teorias porque já não me importo com a inutilidade de um sentimento líquido jorrado em rios que não passam no teu país…país em que sais para países nessa arrogância de abandono altivo...ao menos que a alma viaje contigo…por isso (não estarás onde quer que estejas, nesta viagem virtual) desliguei-te. A nós, para nós (os outros que continuam), fui até à província com calçado castiço e puxei a manivela enferrujada, para que o nosso comboio passe a horas e possamos puxar os cabelos nestes amores desiludidos mas corajosos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Para onde parte este braço, parte de corpo que não vejo nem sinto? Que coisas inexplicáveis aconteceram-me até aqui? Em quantos desastres tive de pensar para realmente ficar sozinha, entre a escada e o passeio, agarrada ao corrimão, em direcção ao fim da escadaria que espreita o céu e ninguém? Em quantas negações fui perdendo os amores? Em quantos bolsos rotos enfiei as mãos na esperança que eles se tivessem cosido, no segredo das linhas? Será que o meu coração também voltou a coser-se (enquanto dormia) e retocou os rasgos da minha carne? Será que o meu coração me concede outra vida?

Agora preciso de agarrar em todos os poemas que adoro para voltar a fechar-me nesses livros e sentir como as palavras me beijam a face de forma permanente. Mas lembro os beijos matinais, em que eu espantava as horas ainda pestanejando sonhos para o largo da cama. Mas lembro todos os poemas abertos sobre a mesa…que líamos em voz alta, sobre a voz da rádio.

Que resoluções deixei cair, como a maça que tomba pelo saco até à deriva dos pontapés da água? Quem se agachou primeiro porque não fui eu que a tirei de lá…como o meu amor que anda aos tombos, abandonado nas fileiras de água desta cidade, sem saber onde se esconder?
Foste tu? Ou alguém de quem não sei nome nem morada...?