quinta-feira, 12 de março de 2009

Leitaria A Camponeza


Todos os dias, o arrumador dita-me um bom dia, desdentado e alcoólico. Mas, sem medo desse sorriso débil, ele dita-me um bom dia. Eu tento fazer como lhe agradeci. Na rua, escurecida pela estreiteza e pelo mistério, os dias vivem-se num centro de cidade longe dessa cidade em combate para o rio. Para além das fachadas, há a cidade contada e pingada sobre o balcão, no olhar saudoso e inegável de outros tempos. A velhice coxeia sobre uma perna manca de recordações e repousa o seu silêncio, debruçado sobre a mesa a pedido de mais um bagaço. E, desse bagaço, já começam a nascer uns murmúrios que me contam como foi. Há sempre algo de triste que fica, quando as histórias se despedem, talvez para voltarem no dia seguinte. Mas, se assim não acontece, há outro que descobre como começar a sua história. Ou há outro que volta para afinal esquecer-se da sua história desenhada num bloco, deixado ao lado dos trocos do café.

Mas a Camponeza tem saudades de Lisboa. Já poucos lhe vêm contar histórias, ao sussurro contra os azulejos. Ou aqueles que rasgam tantos guardanapos quanto a batida do seu coração, à procura da resposta escrita do sucedido. E há quem pergunte, às paredes, o que traz a bilha da Camponeza, com medo de abrir a própria mala, para não chorar o pecado. E há quem não apareça porque falar do bem traz-lhes dores de cabeça e não lhes assenta bem na frustração pendurada nos ombros como casaco desgastado.
Mas a Camponeza continua com saudades de Lisboa. Um século já passou-lhe, à espera que venha um próximo que poderá chegar, quando ela menos esperar.

Sem comentários:

Enviar um comentário